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“Contos do outro lado”: um mergulho no absurdo das situações quotidianas

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O absurdo das situações quotidianas é o tema deste belíssimo livro de Filippo Garozzo.

contos-do-outro-ladoContos do outro lado (Editora de Cultura, 312 páginas) traz pequenas histórias de cada dia, com detalhes dos quais não nos apercebemos.

Quem nunca ficou preso em um elevador que não pára de subir? Se não ficou, conhece alguém que ficou. Ou então ficou preso em um dia que acontece dia após dia. Ou ainda, quis também ter o dom de convocar as ameaçadoras borboletonas negras para dar cabo do rival.

O siciliano Garozzo, com seu inconfundível e único estilo, brinca com a imaginação do leitor, colorindo de fantástico o embaraçoso real que não devia sê-lo.

Seus personagens poderiam ser qualquer um – eu, você, ou aquele que passou há pouco – pois o que têm em comum é o incomum de cada vida: as frustrações, os rancores, as alegrias, as esperanças e o conhecimento perturbador que, de tão exato, parece inverossímil.

É com maestria que o autor, em seu terceiro livro de contos, burla as regras e surpreende a cada linha, trazendo um sentimento de, como diria Tertuliano em sua obra De Carne Christi (Sobre a carne de Cristo), “Credo quia absurdum”, ou acreditar apenas porque é inacreditável.

E, a cada conto – são catorze -, a cada retalho da vida de um seu personagem, o autor se permite subtrair o fim do que está premente, dando por vezes a ilusão de um moto contínuo, ou, como ele conta:

Esse tipo de mundo no qual eu estava enclausurado não era um mundo só meu, não era um mundo criado para minha exclusiva infelicidade. Era um mundo que também pertencia aos outros, que os repetia como me repetia, embora nenhum deles tivesse consciência disso! Pertencia a todos, à humanidade inteira. O tempo? Uma espécie de vitrola, como se usava antigamente, tocando um disco de vinil com defeito, cuja agulha era incapaz de ir para a frente, voltando sempre ao sulco anterior, sempre ao mesmo giro… Senhores, hoje é quar…  Senhores, hoje é quar… Senhores, hoje é quar…

Esse senhor de óculos, camisa azul e sorriso resignado é o siciliano Filippo Garozzo (Foto: Luiz Carlos Cardoso)

Esse senhor de óculos, camisa azul e sorriso resignado é o siciliano Filippo Garozzo (Foto: Luiz Carlos Cardoso)

Filippo estreou na literatura aos 70 anos, muitos depois de largar o jornalismo.

Já na sua obra de estreia, nos brindou com um precioso Contos de São Paulo, que utilizava a metrópole como cenário, um bairro em cada conto. Levou de cara um prêmio: o 28° Prêmio Clio de História da Academia Paulista da História, em 2004.

Tomou gosto pela coisa e veio em seguida com um divertido e preguicento Contos de sábado á tarde.

Contos do outro lado, terceiro e último, surgiu para fechar, num momento da vida em que Garozzo tinha que lidar com a ideia de finitude da sua própria vida. Talvez por isso nenhum destes 14 últimos contos tenham um fim delineado, apenas a intenção de que nada termina.

O refinado autor, depois de nos brindar com estas três preciosidades, deixou este mundo em junho de 2010.

 

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